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A chaga do crack
e a lambança dos governos
O objetivo declarado dos higienistas radicais era espantar os
traficantes para provocar "dor e sofrimento" na legião de
deserdados, imaginando que assim eles trocariam gentilmente o crack por ajuda
social.
Resultado: 41 prisões em seis dias, nenhum drogado encaminhado para
clínicas de tratamento, autoridades batendo cabeça e a chaga se espalhando
por vários bairros vizinhos ao centro, assustando os moradores e obrigando o
comércio a fechar as portas mais cedo.
Trata-se de um problema social tão grave, e bem no coração de São
Paulo, que exigiria a ação combinada dos governos municipal, estadual e
federal, com médicos, assistentes sociais e agentes do Judiciário, mas
nenhuma autoridade do primeiro escalão sabia que a Operação Cracolândia seria
desencadeada na semana passada.
Alckmin, governador do Estado pela terceira vez; Kassab, que está na
Prefeitura desde 2004 (primeiro como vice), e o comandante geral da PM,
Álvaro Camilo, não foram informados. Desde a campanha eleitoral, a presidente
Dilma Rousseff vinha falando da necessidade de se unir esforços para
enfrentar o problema do crack em São Paulo, mas o Ministério da Saúde ainda
nem entrou na história.
Não havia nenhum esquema preparado para encaminhar os drogados. Desde
o final de outubro, sob o comando do governador e do prefeito, representantes
das áreas de Segurança Pública, Assistência Social e Saúde nas áreas
municipal e estadual vinham planejando uma ação para a Cracolândia, que deveria
ser desencadeada somente em fevereiro, após a inauguração de um centro de
atendimento com 1.200 vagas no Bom Retiro.
Em maio, haverá troca no Comando-Geral da PM e, em outubro, teremos
eleições municipais. Espera-se que estas duas disputas não estejam na origem
da lambança da semana passada e que vidas humanas já destroçadas não sejam
alvo da conquista de votos ou de poder.
Ainda é tempo para que representantes dos três níveis de governo se
entendam e se unam para montar uma força-tarefa capaz de salvar estas vidas e
o que ainda resta de dignidade na selva de crack, concreto e hipocrisia
paulistana.
Se não formos capazes de tratar humanamente de 400 drogados, para que
servem os governos que elegemos e os impostos que pagamos?
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